Há um fenómeno silencioso a acontecer em segundo plano cada vez que abrimos um browser ou usamos uma aplicação online. A internet, tal como a conhecemos, já não é maioritariamente frequentada por pessoas. Os chamados bots, programas automáticos que executam tarefas repetitivas na rede, ultrapassaram há muito o tráfego humano. Mas a novidade agora é diferente e mais relevante: os agentes de inteligência artificial estão a acelerar esse desequilíbrio a um ritmo que surpreendeu até os próprios especialistas do setor.
O que é exatamente um agente de IA e por que razão é diferente de um bot comum?
Durante anos, os bots que circulavam pela internet eram relativamente simples. Faziam pesquisas automáticas, verificavam preços, indexavam páginas para motores de busca ou enviavam spam. Era tráfego automatizado, mas previsível e com propósitos limitados.
Um agente de inteligência artificial é uma categoria completamente diferente. Pense num assistente que não só lê uma página, mas que a interpreta, toma decisões com base no que leu, navega para outras páginas, preenche formulários, compara informações e executa tarefas complexas em nome de um utilizador humano. É a diferença entre um termómetro e um médico. Um mede, o outro raciocina e age.
Ferramentas como o ChatGPT, o Gemini da Google, o Copilot da Microsoft e dezenas de outras plataformas estão a lançar funcionalidades de agentes que navegam autonomamente na web. Quando um utilizador pede ao seu assistente de IA que reserve um restaurante, compare tarifas de viagem ou faça uma pesquisa de mercado, é um agente que percorre a internet para o fazer, não o próprio utilizador.
Os números que mudaram a conversa
Relatórios recentes de empresas especializadas em segurança e análise de tráfego web mostram que o volume de pedidos gerados por agentes de IA cresceu a um ritmo exponencial nos últimos meses. O que estava projetado para acontecer no horizonte de 2027 ou 2028 está a materializar se agora, em 2025.
Para ter uma perspetiva concreta: cada vez que um utilizador humano faz uma pesquisa, um agente de IA pode gerar dezenas ou centenas de pedidos automáticos para completar a mesma tarefa. A pegada digital de um único utilizador com um assistente de IA ativo é exponencialmente maior do que a de alguém que navega manualmente. Multiplique isso por milhões de utilizadores em todo o mundo e compreende se porque o tráfego humano ficou para trás.
O que muda para os utilizadores comuns e para as empresas portuguesas?
Para quem navega na internet no dia a dia, os efeitos mais imediatos são subtis mas reais. Os sites estão a investir mais em sistemas de verificação de identidade precisamente porque precisam de distinguir se estão a falar com uma pessoa ou com um agente automatizado. Os famosos testes de “não sou um robot” vão tornar se mais sofisticados e frequentes.
Para as empresas com presença digital, a implicação é ainda mais direta. Os agentes de IA são os novos “clientes” que visitam um site antes do cliente humano chegar. Se uma loja online não estiver preparada para ser “lida” e interpretada por estes agentes, pode simplesmente deixar de aparecer nas respostas que os assistentes de IA dão aos utilizadores. É como não ter um site nos anos 2000: a empresa existe, mas ninguém a encontra.
Uma internet com duas camadas
O que está a emergir é essencialmente uma internet com duas camadas paralelas. Uma camada humana, onde as pessoas navegam, consomem conteúdo e interagem. E uma camada de agentes, onde os programas de IA circulam em alta velocidade, recolhem informação, executam tarefas e comunicam entre si para servir esses mesmos humanos.
Esta dualidade levanta questões importantes sobre privacidade, sobre quem controla os dados que os agentes recolhem e sobre a segurança das infraestruturas digitais. As autoridades reguladoras europeias, incluindo em Portugal, já começaram a acompanhar este fenómeno no quadro do AI Act, a legislação europeia sobre inteligência artificial.
O que podemos fazer com este conhecimento?
A mensagem prática é clara: este não é um fenómeno distante ou técnico. Afeta diretamente a forma como encontramos informação, como as empresas são descobertas online e como os serviços digitais são construídos. Compreender que a internet é hoje maioritariamente percorrida por agentes automatizados ajuda nos a tomar decisões mais informadas sobre as ferramentas que usamos e sobre a pegada digital que deixamos quando delegamos tarefas a um assistente de IA.
A Arena Digital continuará a acompanhar esta evolução e a traduzir o que significa para quem vive e trabalha em Portugal.
Fonte: Notícia Original





