Existe uma economia invisível que funciona em paralelo com a nossa vida digital. Cada vez que os utilizadores navegam nas redes sociais, fazem pesquisas ou utilizam aplicações no telemóvel, estão a gerar um tipo de matéria prima extremamente valiosa: os dados pessoais. Um estudo recente colocou lado a lado as maiores empresas tecnológicas do mundo e os resultados são reveladores sobre quem recolhe mais informação e em que quantidade.
A diferença entre recolher e recolher demais
Nem todas as empresas tecnológicas tratam os dados dos utilizadores da mesma forma. A Apple e a Microsoft são frequentemente descritas como empresas que adotam uma postura mais contida na recolha de informação pessoal. A Apple, em particular, construiu parte da sua imagem de marca precisamente em torno da privacidade, limitando a quantidade de dados que os seus sistemas agregam sobre cada pessoa. A Microsoft, focada sobretudo em software empresarial e produtividade, tende a recolher dados mais orientados para a melhoria dos seus serviços profissionais.
A Meta, empresa que detém o Facebook, o Instagram e o WhatsApp, opera com uma lógica completamente diferente. O seu modelo de negócio assenta quase inteiramente na publicidade direcionada, o que significa que quanto mais souber sobre os utilizadores, mais valiosas se tornam as suas plataformas para os anunciantes. De acordo com os dados analisados, a Meta recolhe aproximadamente o triplo da informação pessoal que a Microsoft ou a Apple recolhem dos seus utilizadores.
Uma biblioteca sobre cada utilizador
Para perceber a dimensão desta diferença, podemos pensar numa analogia com bibliotecas. Se a Apple mantém sobre cada utilizador um pequeno dossier com informação essencial, como o nome, os dados de pagamento e o historial de compras de aplicações, a Meta constrói uma biblioteca completa. Essa biblioteca inclui não só o que os utilizadores publicam de forma consciente, mas também o que consomem em silêncio: os vídeos que se pausam a meio, as publicações em que os olhos demoram mais tempo, os grupos que se visitam sem participar, as horas do dia em que cada pessoa está mais ativa e até comportamentos inferidos a partir de padrões de utilização.
Esta informação é depois processada por sistemas de inteligência artificial que criam perfis de utilizador extremamente detalhados, capazes de prever comportamentos de consumo, preferências políticas, estados emocionais e muito mais.
O que é recolhido concretamente
Os tipos de dados que a Meta recolhe podem dividir se em várias categorias. Existem os dados fornecidos diretamente pelos utilizadores, como o nome, a data de nascimento, o número de telemóvel e a localização. Depois existem os dados comportamentais, gerados automaticamente pela forma como cada pessoa interage com as plataformas. Há também os dados inferidos, que são conclusões que os algoritmos tiram a partir do cruzamento de toda a informação disponível. E por fim existem os dados de terceiros, provenientes de parceiros externos e de aplicações que utilizam os sistemas de autenticação ou de publicidade da Meta, mesmo quando os utilizadores não estão a usar diretamente as plataformas do grupo.
Esta última categoria é particularmente importante porque significa que a recolha de dados não se limita ao tempo que passamos no Facebook ou no Instagram. Acontece em segundo plano, em muitos outros contextos digitais.
O que os utilizadores podem fazer
Conhecer esta realidade é o primeiro passo para fazer escolhas mais informadas. Em Portugal e na União Europeia, os utilizadores têm direitos legais garantidos pelo Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados, conhecido como RGPD. É possível aceder às definições de privacidade de cada plataforma e limitar, pelo menos parcialmente, o tipo de dados partilhados. Nas plataformas da Meta, existe a opção de desativar a personalização de anúncios com base em atividade fora das aplicações do grupo, o que reduz a quantidade de informação recolhida através de terceiros.
Além disso, vale a pena rever periodicamente as aplicações instaladas no telemóvel e as permissões que cada uma tem ativas. Muitas aplicações pedem acesso a informação que não é estritamente necessária para o seu funcionamento, como a localização precisa ou os contactos, e essa informação pode ser partilhada com redes de publicidade sem que os utilizadores se apercebam.
Privacidade como escolha e não como sorte
A diferença entre a quantidade de dados recolhidos pela Meta e pelos seus concorrentes diretos não é um acidente tecnológico. É o reflexo de escolhas de negócio deliberadas. Empresas que vendem produtos físicos ou software por subscrição têm menos incentivo para acumular perfis comportamentais detalhados. Empresas cujo produto principal é a atenção dos utilizadores vendida a anunciantes têm todo o incentivo para saber o máximo possível sobre cada pessoa.
Compreender esta distinção ajuda os utilizadores a navegar o mundo digital com mais consciência, sabendo que a utilização gratuita de uma plataforma raramente é verdadeiramente gratuita. O que se paga, muitas vezes, é informação pessoal, e o valor dessa informação é muito maior do que geralmente se assume.
Fonte: Notícia Original





