O mundo da inteligência artificial está a tornar-se um campo de batalha geopolítico. Numa cimeira dos BRICS realizada recentemente, o presidente chinês Xi Jinping anunciou uma proposta que pode alterar o equilíbrio global nesta tecnologia: a criação de uma zona de cooperação aberta em inteligência artificial entre os países membros do bloco. Para quem segue as notícias de tecnologia, esta iniciativa levanta questões importantes sobre o futuro da IA fora do eixo ocidental.
O que são os BRICS e por que razão isto importa?
Os BRICS são um grupo de economias emergentes que inclui Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, tendo sido alargado recentemente a outros países como o Egito, a Etiópia, o Irão e os Emirados Árabes Unidos. Juntos, representam mais de 40% da população mundial e uma fatia crescente do produto interno bruto global. Pensar nos BRICS como uma espécie de “clube alternativo” às potências ocidentais tradicionais é uma analogia útil: enquanto os países do G7 definem as regras do jogo tecnológico no seu hemisfério, os BRICS procuram construir as suas próprias regras e infraestruturas.
A proposta de Xi Jinping vai precisamente nessa direção. A ideia central é criar um espaço partilhado onde os países membros possam colaborar no desenvolvimento, na partilha e na implementação de tecnologias de inteligência artificial, sem depender das plataformas, dos modelos e das regulações dominadas pelos Estados Unidos ou pela Europa.
Como funciona a ideia de uma “zona aberta” de IA?
A expressão “zona aberta” pode parecer contraditória quando associada à China, um país conhecido por um ambiente digital bastante controlado. No entanto, neste contexto, “aberta” refere-se à abertura entre os países membros do bloco, e não necessariamente ao público geral. A lógica é semelhante à de um mercado comum: assim como a União Europeia eliminou barreiras alfandegárias entre os seus membros para facilitar o comércio, a China propõe eliminar barreiras tecnológicas entre os BRICS para facilitar a partilha de dados, modelos de IA e infraestruturas computacionais.
Na prática, isto poderia significar que um investigador brasileiro teria acesso a modelos de IA desenvolvidos na China, ou que uma empresa indiana poderia utilizar infraestrutura de computação em nuvem partilhada pelo bloco, reduzindo a dependência de serviços como os da Amazon, da Google ou da Microsoft.
Quais são as vantagens e os riscos desta iniciativa?
Do ponto de vista dos países com menos recursos tecnológicos dentro do bloco, a proposta tem um apelo evidente. Aceder a tecnologia avançada de IA sem os custos elevados das plataformas ocidentais, e sem as condições políticas que frequentemente acompanham esses acordos, é uma perspetiva atrativa. Para a China, a vantagem é ainda mais clara: posicionar-se como líder tecnológico alternativo aos Estados Unidos e expandir a influência dos seus modelos e padrões tecnológicos a nível global.
Os riscos, porém, não são desprezíveis. Uma zona de IA construída sob forte influência chinesa levanta preocupações legítimas sobre privacidade, vigilância e alinhamento dos valores embutidos nos sistemas de IA. Os modelos de inteligência artificial não são neutros: refletem as prioridades, os dados e as visões de mundo de quem os desenvolve. Uma dependência crescente de tecnologia de origem chinesa pode simplesmente substituir uma dependência por outra, sem resolver os problemas estruturais de soberania tecnológica.
O que significa isto para Portugal e para a Europa?
Portugal, enquanto membro da União Europeia, não faz parte dos BRICS. No entanto, esta iniciativa tem implicações indiretas relevantes. Vários países com laços históricos e culturais próximos de Portugal, como o Brasil e Angola, estão diretamente envolvidos ou em órbita deste bloco. Se uma infraestrutura alternativa de IA ganhar tração nos países lusófonos, os parceiros europeus e portugueses poderão encontrar novos desafios na cooperação tecnológica com essas nações.
Além disso, esta proposta intensifica a pressão sobre a Europa para acelerar a sua própria estratégia de soberania digital. O continente europeu tem investido na regulação da IA, nomeadamente através do AI Act, mas a dimensão da competição global exige também investimento na capacidade de desenvolvimento tecnológico próprio.
A corrida à IA é também uma corrida geopolítica
O que esta proposta de Xi Jinping torna absolutamente claro é que a inteligência artificial deixou de ser apenas uma questão tecnológica ou económica. É uma questão de poder, de influência e de soberania. Tal como aconteceu com o petróleo no século XX, os dados e os modelos de IA estão a tornar-se recursos estratégicos pelo qual as grandes potências competem ativamente.
Para os utilizadores comuns, esta dinâmica pode parecer distante, mas as suas consequências são concretas: os serviços digitais que usamos todos os dias, as recomendações que recebemos, as decisões automatizadas que nos afetam, tudo isso depende de quem controla a infraestrutura de IA subjacente. Compreender quem está a construir essa infraestrutura, e com que objetivos, é cada vez mais uma literacia essencial para o século XXI.
Fonte: Notícia Original





