Durante décadas, a computação quântica foi tratada como uma promessa distante, algo reservado a laboratórios de física teórica e a orçamentos astronómicos de potências tecnológicas. Hoje, essa realidade mudou. Os primeiros sistemas quânticos comerciais já existem, empresas como a IBM, a Google e a Microsoft já disponibilizam acesso a hardware quântico via cloud, e governos de todo o mundo estão a investir milhares de milhões de euros na corrida para dominar esta tecnologia. Portugal não pode ficar de fora.
O que é a computação quântica, sem a complexidade toda
Para perceber porque é que esta tecnologia importa, vale a pena usar uma analogia simples. Um computador clássico, o que está em cima da mesa ou dentro do telemóvel, funciona como uma lanterna: aponta numa direção de cada vez, processa uma instrução após a outra. Um computador quântico funciona mais como um holofote esférico: ilumina todas as direções ao mesmo tempo. Esta capacidade, chamada de superposição, permite que os computadores quânticos analisem milhões de possibilidades em simultâneo, em vez de as percorrer uma a uma.
A isto junta-se outro fenómeno chamado entrelaçamento quântico, que permite que dois “bits quânticos” (qubits) estejam interligados de tal forma que a alteração de um afeta instantaneamente o outro, independentemente da distância. O resultado prático é uma capacidade de processamento que, para certos tipos de problemas, supera em ordens de grandeza tudo o que os computadores atuais conseguem fazer.
Porque é que Portugal precisa de agir agora e não depois
Existe uma armadilha comum no pensamento estratégico sobre tecnologias emergentes: esperar que a tecnologia esteja “pronta” antes de começar a preparar o ecossistema. Foi o que aconteceu com a inteligência artificial em muitas organizações portuguesas. Quando o ChatGPT tornou a IA mainstream, em 2022 e 2023, a maioria das empresas nacionais não tinha dados organizados, não tinha talento formado e não tinha processos adaptados. O resultado foi um atraso de adaptação que ainda se sente.
Com a computação quântica, o risco é exatamente o mesmo, mas com consequências potencialmente mais graves. Há uma ameaça concreta e urgente chamada “harvest now, decrypt later”. Trata-se de uma estratégia já em uso por atores estatais e grupos de cibercrime sofisticados: recolhem hoje grandes volumes de dados encriptados, sabendo que ainda não os conseguem decifrar, e guardam-nos para o momento em que um computador quântico suficientemente potente o consiga fazer. Isso significa que dados de saúde, segredos industriais e comunicações governamentais que circulam nas redes portuguesas hoje podem estar a ser armazenados para serem lidos no futuro.
O que é a criptografia pós-quântica e porque é que já existe
A boa notícia é que a resposta a este problema já foi desenvolvida. Em agosto de 2024, o NIST (o instituto americano de normalização e tecnologia) publicou os primeiros padrões oficiais de criptografia pós-quântica. Estes são algoritmos matemáticos concebidos especificamente para resistir aos ataques de computadores quânticos, mesmo sendo executados em computadores clássicos como os que usamos hoje.
A transição para estes novos padrões é comparável à mudança das fechaduras de uma cidade inteira. Não se muda tudo da noite para o dia, mas se não se começar o planeamento agora, quando os arrombadores chegarem com as novas ferramentas, vai haver muitas portas abertas. As organizações que já iniciaram auditorias à sua infraestrutura criptográfica e que estão a mapear onde usam encriptação vão ter uma transição muito mais suave e muito menos dispendiosa.
Oportunidades concretas para Portugal além da defesa
A preparação para a era quântica não é apenas uma questão de segurança defensiva. Existem oportunidades reais para o tecido económico português. A indústria farmacêutica e biotecnológica, que tem uma presença crescente em Portugal, pode beneficiar enormemente da simulação molecular quântica para acelerar o desenvolvimento de novos medicamentos. A logística e os transportes, setores com peso na economia nacional, podem usar otimização quântica para reduzir custos operacionais de forma significativa. O setor financeiro pode aplicar esta tecnologia a modelos de risco e deteção de fraude com uma precisão sem precedentes.
Para que Portugal capture algum deste valor, é necessário investir já na formação de talento. As universidades precisam de integrar fundamentos de computação quântica nos cursos de engenharia, física e matemática. As empresas precisam de começar a experimentar com os serviços quânticos em cloud já disponíveis, não para resolver problemas de produção, mas para construir o músculo organizacional e a literacia interna que vão ser decisivos quando a tecnologia atingir maturidade comercial plena.
O que os utilizadores e as organizações podem fazer a partir de hoje
A mensagem central é esta: a preparação para a computação quântica não exige ter acesso a um computador quântico. Exige começar a pensar, a formar e a auditar agora. Para as organizações, o primeiro passo é identificar que dados e sistemas dependem de encriptação e perceber qual o nível de sensibilidade e longevidade dessa informação. Para os profissionais de tecnologia, o investimento em literacia quântica é hoje tão estratégico quanto foi aprender sobre cloud computing há dez anos. Para os decisores políticos e empresariais, a mensagem é simples: a janela para agir de forma proativa está aberta, mas não ficará aberta para sempre.
Portugal tem todas as condições para não repetir o erro de chegar atrasado a uma transformação tecnológica estrutural. A questão não é se a era quântica vai chegar. A questão é apenas se vamos estar preparados quando ela chegar.
Fonte: Notícia Original





