Há uma divisão curiosa a acontecer no mundo empresarial. De um lado, as grandes organizações anunciam investimentos milionários em inteligência artificial. Do outro, quando se olha para o dia a dia dessas mesmas empresas, a tecnologia ainda não chegou à maioria dos processos reais. É como comprar um ginásio completo para casa e continuar a não fazer exercício: o equipamento existe, mas a rotina ainda não mudou.
O que diz a KPMG e porque devemos prestar atenção
A KPMG, uma das maiores consultoras do mundo, tem acompanhado de perto esta tendência. Segundo os seus executivos, as empresas estão a acelerar os orçamentos destinados à IA a um ritmo que nunca se viu, mas a adoção efetiva, ou seja, a integração real da tecnologia nos fluxos de trabalho quotidianos, continua muito aquém das expectativas. Este desfasamento não é um pormenor técnico. É um sinal de alerta para qualquer organização que queira sobreviver na próxima década.
A diferença entre ter IA e usar IA
Para entender o problema, é útil comparar a IA a um tradutor automático de línguas. Uma empresa pode contratar o melhor sistema de tradução do mercado, mas se os seus colaboradores continuarem a redigir documentos como sempre fizeram, sem adaptar os processos, sem formar as equipas, o tradutor fica à espera. O investimento existe, mas o valor não é gerado.
É exatamente isto que a KPMG identifica como o principal obstáculo. A tecnologia avançou mais depressa do que a cultura organizacional. As ferramentas estão prontas. As pessoas e os processos, na maioria dos casos, ainda não.
Três razões concretas para este atraso
A primeira razão prende-se com a formação. A maioria dos trabalhadores ainda não recebeu treino adequado para incorporar a IA nas suas funções diárias. Não se trata de saber programar, mas de compreender como delegar tarefas repetitivas a estas ferramentas e concentrar energia humana no que realmente acrescenta valor.
A segunda razão é a desconfiança. Muitas organizações hesitam em confiar decisões importantes a sistemas que não compreendem totalmente. Esta hesitação é legítima e não deve ser ignorada. A IA comete erros, e sem supervisão humana bem estruturada, esses erros podem escalar rapidamente.
A terceira razão é a ausência de uma estratégia clara. Comprar licenças de ferramentas de IA sem definir objetivos concretos é o equivalente a construir uma estrada sem saber para onde ela leva. As empresas que estão a colher resultados são as que definiram, antes de tudo, que problema concreto queriam resolver.
O que isto significa para as pequenas e médias empresas
Para as PME portuguesas, esta análise traz uma mensagem encorajadora. O facto de as grandes empresas estarem a lutar com a adoção significa que o terreno ainda está em aberto. Não é necessário ser uma multinacional para integrar bem a IA. Pelo contrário, estruturas mais pequenas têm frequentemente mais agilidade para testar, adaptar e implementar mudanças reais no seu funcionamento.
O conselho prático que emerge desta análise da KPMG é simples: em vez de seguir a corrida dos investimentos avultados, vale mais identificar uma tarefa concreta que consome tempo e energia, experimentar uma ferramenta de IA nesse contexto específico, medir os resultados e só depois expandir. A adoção bem feita começa pequena e cresce com evidências reais.
A lição mais importante desta tendência
A inteligência artificial não transforma empresas apenas por existir dentro delas. Transforma empresas quando as pessoas que trabalham nessas empresas mudam a forma como tomam decisões, delegam tarefas e medem resultados. O investimento em tecnologia é o bilhete de entrada. O trabalho de transformação cultural é a viagem em si.
Na Arena Digital, acompanhamos de perto este processo porque acreditamos que compreender a tecnologia é o primeiro passo para a usar bem. E usar bem é o único caminho que realmente importa.
Fonte: Notícia Original





